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Wullong Mountain Quest
O Wullong Mountain Quest foi uma experiência totalmente nova, primeiro por ser uma prova de estágios, depois por ser na China, no outro lado do mundo! Tudo era novidade para nós, a começar pela comida. A adaptação foi muito difícil. O fuso era de 11 horas, então tivemos que trocar a noite pelo dia em um piscar de olhos. Foram 6 largadas, das quais fizemos 5. A prova de estágio, que a princípio parece mais fácil porque se pára para dormir, é muito mais difícil porque o ritmo é muito mais intenso. Não existia navegação e o porcurso era todo demarcado. Foi incrível conviver uma semana com as equipes tops do mundo, trocar experiências, ver seus hábitos e como correm. Voltamos muito cansados, mas com uma nova visão da vida. Foi uma experiência muito válida que levaremos para o resto da vida.
A viagem de avião já foi muito longa. Do Rio para São Paulo, de São Paulo para Madri, de lá para Pequim, depois para Chongquing e ainda mais 6 horas de carro para Wulong, no topo da Fairy Mountain, onde estava nosso hotel. A nossa equipe, a única equipe brasileira, Team Xpresso, estava representada pelos atletas Márcio Franco, Vinicius Zimbrão, Guilherme Pahl e por mim, Manuela Vilaseca.
A primeira refeição na China foi em Chonquing, logo que desembarcamos, acompanhados de nosso staff. Fomos levados para um luxuoso hotel onde tivemos a oportunidade de provar diversos tipos de pratos típicos. O cheiro da comida era sempre muito forte e tudo com muita pimenta. Eu não tive muita coragem de comer as carnes porque não sabia de que bicho poderia ser. Mas depois desse banquete já começamos a criar uma intolerância com a comida chinesa. Daí para frente aprendemos a pedir arroz e essa era sempre a nossa garantia de refeição.
A ida já foi uma enorme aventura porque preparamos tudo em 5 dias, desde o momento que recebemos o convite até o momento de embarcar. Foram 2 dias de avião e só tivemos a sexta feira para descansar para a primeira largada, que seria no sábado. Na verdade descanso nem tivemos muito porque tivemos que montar nossas bikes e organizar equipamentos na própria sexta feira.
DIA 0 (PRÓLOGO)
Sábado foi o prólogo, dia 0, uma prova sprint de 45 minutos. Já imaginava o sofrimento, mas na hora é claro que foi muito pior. Acho que foram os 48 minutos mais longos da minha vida! A largada aconteceu com 3 km de corrida. Saí já rebocada pelo Gui, correndo abaixo de 4min/km. Em pouco tempo já estava hiper ventilando e rezando para que esse trecho acabasse logo. Subimos na bike para um trecho de 4km e usamos o vácuo um do outro para passar algumas equipes. Chegamos na área de transição e eu já fiz tudo o mais rápido possível para ganhar tempo na descida para o rio. Pulamos dentro do bote e começamos a remar, num trecho de 3km de descida. Os remos eram tábuas de madeira estreitas que quase não puxavam água. Estávamos muito focados principalmente porque conseguimos nos aproximar e passar algumas equipes que estavam na nossa frente, sendo uma delas a Team Sole. Mas depois do rafting ainda tínhamos que subir correndo uma enorme ladeira e atravessar uma ponte até a chegada. Eu estava exausta e nesse pequeno trecho de corrida sofri muito até chegar. Parecia que não ia acabar! Cruzamos a linha de chegada em 11 lugar, com 48 minutos, 4 minutos depois da primeira colocada, Nike USA. Já nesse primeiro dia fiquei muito impressionada com o ritmo das equipes gringas e sabia que eles não iam deixar barato nas etapas que vinham pela frente.
Voltamos para o Hotel (esse transporte durava em torno de uma hora e meia) e começamos a nos organizar para o dia 1. A prova em Wulong envolve muita logística. Ganhamos um caderno com a descrição de cada dia de prova e tínhamos uma "baia" onde ficavam todos os nossos equipamentos e nossas bikes. Tínhamos 3 barris de plástico onde deixávamos os equipamentos e alimentação de cada trecho da prova. Para isso tínhamos que visualizar cada etapa da prova seguinte e planejar a melhor estratégia para deixar em cada barril o que seria necessário.
DIA 1
A largada do dia 1 foi, mais uma vez, de corrida (para o meu desespero!). Eu adoro correr, mas lá eu tomei trauma! O ritmo era muito forte e não existia um aquecimento. Foram 4km de corrida, que quando conversamos antes, seria num ritmo tranqüilo. Mas logo que largou vi a mesma cena se repetindo. As mulheres todas rebocadas por um extensor, num ritmo muito forte já no início. A primeira transição foi para o biathlon, onde 2 atletas deveriam estar de bike e 2 correndo. Esses atletas poderiam alternar a bike com corrida e foi assim que todo mundo fez. Nós estávamos com uma estratégia diferente, que já de cara vimos que era uma estratégia burra. Eu pedalaria o tempo todo (14km) para descansar e os 3 meninos alternariam 1 bike. Eu estava de sapatilha porque não estava planejada para correr, mas logo recebi ordem do capitão da equipe, Márcio, para descer da bike a correr, revezando com eles. Com isso eu estava num ritmo muito forte desde o início, ainda tendo que correr de sapatilha, e sem conseguir me recuperar. Fizemos os 14km de biathlon e já emendamos num trecho de mountain bike, que começava por uma serra.
Mais uma vez lá estava eu, sendo rebocada ladeira acima. Eu não estava me sentindo bem e sofria o tempo todo. Me sentia fraca e sabia que se eles me soltassem eu diminuiria o ritmo brutalmente. Como eles também perceberam isso saíram me empurrando e rebocando no ritmo deles. Disputamos esse trecho com várias equipes e passamos muitas delas. Vimos a La Fuma (excelente equipe francesa) parada com problemas na bike. Depois disso mais uma longa serra, também muito sofrida para mim, até a área de transição. Lá em cima todas as equipes eram obrigadas a ficar 15 minutos paradas. Eu cheguei lá muito cansada e desidratada. Abri o barril e já tirei uma caramalhola de endurox R4, que eu havia deixado para tomar nesse momento. Eu estava com muita sede e bebi tudo de uma vez só. Foi o tempo de terminar de beber o R4 para começar a me sentir mal. Ainda tínhamos uns 5 minutos e eu me levantei. Os chineses da organização perceberam que eu não estava bem e começaram a falar comigo preocupados e já trazendo um equipamento para medir o pulso. Nessa hora vomitei 3 vezes! Foi a caramanhola de R4 inteira. Quando levantei a cabeça os meninos já gritavam: Vamos, Manu! Vamos logo que a La Fuma acabou de descer para o rio! Saí correndo com eles na trilha de single track que levava para o rio. Eu estava fraca e aquilo tudo estava sofrido demais para mim. Logo em seguida veio uma subia que eu já não consegui subir trotando e pedi para que a gente andasse um pouco. Essa é a parte mais dolorosa de correr em equipe: não estar bem para andar no ritmo do resto. Mas eu precisei diminuir mesmo porque já não tinha forças para segurar meu próprio corpo. Entramos num trecho de canyoning que eu despencava de cima das pedras. Estava com muita sede e a gente estava sem água. Cada vez que eu tinha que dar um mergulho no rio eu dava um gole de água. Sabia que não deveria beber daquela água mas minha sede era maior que tudo naquele momento. E assim fui me arrastando pela etapa de rio, e melhorando aos poucos. Fomos ultrapassados por algumas equipes e eu senti uma culpa horrível de ter sido o motivo daquelas ultrapassagens. Mas eu estava dando tudo de mim e era só o que podia fazer naquele momento. O final do trecho de canyoning veio como um presente para mim. Ainda tínhamos um trecho longo de canoagem e 3km de corrida até a chegada. Mas foi na canoagem que me recuperei. Ali peguei o meu colete que estava com o camel back lotado de água. Consegui me hidratar e comer e remar forte para passar 3 equipes. Nessa hora o Zimbrão começou a sofrer de câimbras, resultado de todo esforço que havia sido feito nas etapas anteriores. Chegamos, depois de 2 horas de canoagem, na tiroleza. Deixamos o Gui e o Márcio de um lado do rio e remamos para a outra margem para subir e encontrá-los. Eu ainda estava com dor de barriga! Parece que é o tipo da coisa que te diz que se ta ruim ainda pode ficar pior. Subimos uma enorme escadaria para encontrar os meninos, que já nos gritavam para subirmos mais rápido. Ao chegar lá em cima começamos a fazer a última corrida, essa por dentro de uma linda caverna, para fechar o primeiro dia de prova. Ao sair da caverna lá estava o presente. O pórtico de chegada e nossos amigos Paul Romero e Karen Lundgren, da Team Sole, nos esperando. Cruzamos a linha de chegada em 15 lugar e eu, muito feliz por ter sobrevivido. Já eram 16:00 e ainda tínhamos que pegar o ônibus de volta para o hotel, para encarar a lavagem das bikes e estratégia de equipamentos para o dia seguinte. Depois disso, comer e dormir. Deitei na cama ciente de que o dia seguinte teria que ser diferente e pude constatar que aquilo era brincadeira de gente grande.
DIA 2
No dia seguinte já acordei tomando eletrolytes, bebendo água e preparando a minha cabeça para mai um dia de tortura. Mas de uma certa forma esse dia 2 me confortava: a largada seria de canoagem. Por mais que a gente largue remando forte a freqüência cardíaca não fica elevada como na corrida. A largada foi feita em etapas. As equipes largaram por ordem de colocação, com uma diferença de 5 minutos entre uma e outra. Larguei remando com o Gui e descemos bem os 15km de rio. Para sair tivemos que pegar uma corrente contra porque passamos um pouco do ponto, mas conseguimos vencer a força do rio. Ali tiramos nossos coletes e já saímos correndo pelas trilhas em direção ao morro. A pior parte estava por vir. Subimos uma trilha vertical para chegar a 900m acima do nível do rio. Foi uma pirambeira que tivemos que subir num ritmo intenso, com o coração na boa o tempo todo. Mas eu estava muito atenta com alimentação e hidratação e toda hora me lembrava de que devia colocar alguma coisa para dentro. Chegamos lá em cima e tivemos a melhor visão. Lá estavam várias equipes correndo pela estrada! Saímos correndo e dessa vez quem sentiu foi o Zimbrão. Ele foi ficando para trás e o Gui logo se prontificou a ajudar. Chegamos na área de transição e lá estava a Nike USA. A mulher que corria com eles estava "morta" e eles estavam pagando o preço por ter puxado tanto o ritmo. Pegamos nossas bikes e saímos por um trecho de estrada de terra com muitas pedras. O Zimbra estava desidratado e sentindo bem a dificuldade de pedalar. Quando se está fraco e ainda tem que se pedalar num trecho técnico as coisas ficam muito mais complicadas. Diminuímos o ritmo e começamos a ajudá-lo a se alimentar. Nesse dia eu estava me sentindo muito bem e já avisei que podia ajudar caso fosse necessário. Pegamos um single track e alguns trechos de estrada até chegar na área de transição. Ali, para a alegria de todos, haviam os 15 minutos de descanso. Eu deixei uma garrafa de Pepsi no barril, que sabia que iria ajudar nesse momento. Eu estava morrendo de fome, o que me deixa muito feliz porque sei que significa que eu estava bem (comi uma pizza!). Colocamos nosso equipamento de cordas para encarar o rapel. Finalizado os 15 minutos saímos correndo em direção ao rapel e lá encaramos uma fila de 3 equipes na frente. O rapel era impressionante.
De todos que fiz até hoje esse foi o mais bonito de todos! Era uma descida de 150 metros, negativos, por dento de uma caverna. Descemos de 2 em 2 e aproveitamos muito o maravilhoso visual naquele momento. Mas sabíamos que depois daquela descida havia a subida porque teríamos que voltar para a área de transição para buscar nossas bikes. A subida foi forte mas procuramos puxar o ritmo porque logo atrás vinha a equipe Team Orca. Ao chegar na transição botamos rapidamente nossas sapatilhas e saímos pedalando para mais um trecho de mountain bike. Nesse trecho pegamos de tudo: trilhas, estradões de terra, asfalto, downhills, e pior, com a Team Orca na nossa cola. Conseguimos passá-los na primeira parte e tivemos que sustentar essa vantagem. O Zimbrão não estava 100% e foi muito guerreiro dando tudo de si para não deixar cair o ritmo da equipe. Conseguimos subir a serra de asfalto na frente deles, mas chegamos na transição praticamente juntos. Ali vinha o trecho final, um canyoning por dentro de uma caverna. Foi o trecho mais legal de todos os dias!
Foi tenso porque tivemos que nos deslocar ali sabendo da Team Orca que vinha atrás. Passamos por cima de pedras, pulamos de cima delas, descemos cachoeiras com luz e no escuro, muitas vezes com ajuda de cordas que lá estavam. Chegamos a pegar trechos de natação no breu e de repente avistamos uma equipe chinesa, que passamos com muita sagacidade! Para fechar a caverna tivemos que descer uma cachoeira, a maior de todas, por uma corda e depois pulando num poço de água gelada. Nadamos e saímos por uma escada que contornava a caverna, numa cena que só vendo para entender. Lá estava o sol, uma das poucas vezes que o vimos na China, nos esperando para fechar a prova. Subimos as escadarias e demos de cara com um elevador. Quando entramos e a porta se fechou comemoramos muito a prova e as ultrapassagens finais. Ali sabíamos que os chineses e a Team Orca só entrariam quando o elevador descesse! Saímos do elevador e mais umas escadarias (por que na China tem tanta escada???) para avistar o pórtico. Cruzamos em 12 lugar, comemorando muito. Esse dia a prova teve gosto de vitória! Dali a velha rotina: ônibus para o hotel e, lavagem de bikes, logística do dia seguinte, comer e dormir. Uma rotina de matar!
DIA 3
Acordamos no dia 3 de prova, muito cansados. Engraçado que todo mundo disfarçava o cansaço, andando pelos corredores do hotel. Nós estávamos exaustos mas sabíamos que, acontecesse o que tivesse que acontecer, aquele seria o último dia. O Zimbra estava com muita sinusite e não estava conseguindo se alimentar direito e isso nos preocupava. No último dia a largada foi lá em cima da montanha e de corrida, para piorar tudo um pouco. Estava muito frio e eu não botei uma camisa de manga comprida. Estou pagando esse erro até hoje com uma gripe que não me recupero.
A corrida veio descendo a montanha, que a princípio parecia fácil por ser descida, mas o ritmo, para variar, alucinado. Impressionante como as equipes conseguiam sustentar aquele ritmo todos os dias. A descida era bastante perigosa porque era íngreme e escorregadia. Em certo momento o Zimbrão caiu num precipício e sumiu! Era um single track estreito e perigoso e tivemos que ficar bem atentos. No trecho de corrida, que era de 17km, ele já vomitou uma vez e começou a nos preocupar. Estava bastante frio e tivemos que pedalar um pouco mais forte para aquecer. Pegamos subidas e um trecho de downhill alucinante! Era um trecho bem técnico porque tinha muitas pedras soltas, que depois ficamos sabendo que levou alguns competidores ao chão. Chegamos na área de transição, numa cidade lotada de crianças que gritavam algo como gy-o! Eles nos incentivavam por todos os lugares onde passávamos e isso nos impressionava muito. Lá a parada de 15 minutos foi mais uma vez um alívio. Comi uma pizza inteira! O Zimbrão lutava bravamente contra seu mal estar mas a gente percebia que ele não estava conseguindo ingerir mais quase nada. Dali saímos para a outra metade do trecho de mountain bike onde teríamos de encarar uma serra de aproximadamente 10km, e que arrancou ainda mais o resto de energia do nosso amigo Zimbra. Impressionante como ele emagreceu durante a prova! Embaixo da serra a fisionomia dele era uma… em cima era outra. Tiramos o que tínhamos de comida para ele se alimentar, mas ele não estava conseguindo. Dali tínhamos que encarar o downhill até o rio. Mais uma vez um trecho muito técnico, porém muito divertido! Chegamos no rio e tínhamos pela frente 30km de canoagem. Estava bastante frio e todo mundo muito desgastado da prova. Comecei a sentir minha garganta doer e sabia que iria piorar. O Gui também sentia o mesmo e dos 4, só o Márcio estava 100%. O trecho foi sofrido para todos e quando finalmente chegamos na cidade tínhamos que superar o último obstáculo da prova de Wulong: numa ponte desceríamos de rapel guiado, que virava tirolesa no meio e que terminava dentro do rio.
Foi alucinante, mas acho que ali também foi a gota final para a gripe de todo mundo! Subimos e lá estava ele: o pórtico de chegada. Foram 4 dias intensos, de muita experiência e muita luta para chegar ao final.
Agradeço muito a oportunidade de ter ido para a China, para a prova de Wulong, e de ter voltado com tanto aprendizado. Na corrida de aventura somos picados por um bichinho. Durante a prova dói demais e desejamos nunca mais encontrá-lo. Incrivelmente passa um, dois dias, começamos a sentir falta dele. E quando nos perguntam por que fazemos corrida de aventura não sabemos responder. É uma coisa que só quem faz entende porque.










